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Reforma ou Revolução, Rosa luxemburg

sexta-feira 6 de Março de 2009, por Robert Paris

Parte I 1. O Método Oportunista

Se é verdade que as teorias são as imagens dos fenómenos do mundo exterior reflectidas no cérebro humano, é necessário acrescentar que, no concernente às teses de Bernstein, são imagens invertidas. A tese da instauração do socialismo por meio de reformas sociais – depois do abandono definitivo das reformas na Alemanha! A tese do controlo da produção pelos sindicatos –depois do faIhanço dos construtores de máquinas ingleses! A tese de uma maioria parlamentar socialista – depois da revisão da constituição saxónica e dos atentados no Reichstag ao sufrágio universal (1). Entretanto, o essencial da teoria de Bernstein não é a sua concepção das tarefas práticas da social-democracia, o que interessa é a tendência objectiva da evolução da sociedade capitalista que decorre paralela a essa concepção. Segundo Bernstein, um desmoronamento total do capitalismo é cada vez mais improvável porque, por um lado, o sistema capitalista demonstra uma capacidade de adaptação cada vez maior e, por outro lado, a produção é cada vez mais diferenciada. Ainda na opinião de Bernstein, a capacidade de adaptação do capitalismo manifesta-se primeiro no facto de já não existir crise generalizada, o que se deve à evolução do crédito das organizações patronais, das comunicações e dos serviços de informação; segundo, na tenaz sobrevivência das classes médias, resultado da diferenciação crescente dos ramos da produção e da elevação de largas camadas do proletariado ao nível das classes médias; terceiro, finalmente, melhoria económica e política do proletariado, através da acção sindical.

Essas observações conduzem a consequências gerais para a luta prática da social-democracia que, na óptica de Bernstein, não deve visar a conquista do poder político, mas melhorar a situação da classe trabalhadora e instaurar o socialismo não na sequência de uma crise social e política, mas por uma extensão gradual do controlo social da economia e pelo estabelecimento progressivo de um sistema de cooperativas.

O próprio Bernstein não vê nada de novo nessas teses. Pensa, muito pelo contrário, que estão em conformidade tanto com algumas declarações de Marx e Engels como com a orientação geral até agora seguida pela social-democracia.

No entanto é incontestável que a teoria de Bernstein está em absoluta contradição com os princípios do socialismo científico. Se o revisionismo se limitasse à previsão de uma evolução do capitalismo muito mais lenta do que é normal atribuir-se-Ihe, poder-se-ia ùnicamente inferir um espaçamento da conquista do poder pelo proletariado, o que na prática resultaria simplesmente num abrandamento da luta.

Mas não se trata disso. O que Bernstein põe em causa não é a rapidez dessa evolução. mas a evolução do capitalismo em si mesma e, por conseqüência, a passagem ao socialismo. Na tese socialista, na afirmação que o ponto de partida da revolução socialista será uma crise geral e catastrófica, é preciso, em minha opinião, distinguir duas coisas: a ideia fundamental e a sua forma exterior.

A ideia é, supõe-se, que o regime capitalista fará nascer de si próprio, a partir das suas contradições internas, o momento em que o seu equilíbrio será rompido e onde se tornará pròpriamente impossível. Que se imaginava esse momento com a forma de uma crise comercial geral e catastrófica, havia fortes razões para o fazer, mas é, em última análise, um detalhe acessório da ideia fundamental. Com efeito, o socialismo científico apoia-se, é sabido, em três dados fundamentais do capitalismo: 1º, na anarquia crescente da economia capitalista que conduzirá fatalmente ao seu afundamento; 2º, sobre a socialização crescente do processo de produção que cria os primeiros fundamentos positivos da ordem social futura; 3º, finalmente, na organização e na consciência de classe cada vez maiores do proletariado e que constituem o elemento activo da revolução iminente.

Bernstein elimina o primeiro desses fundamentos do socialismo científico: pretende que a evolução do capitalismo não se orienta para um afundamento económico geral. Por isso não é uma determinada forma de desmoronamento do capitalismo que rejeita, mas o próprio desmoronamento. Escreve textualmente: "Pode-se objectar que quando se fala da derrocada da sociedade actual, visa-se outra coisa que não uma crise comercial geral e mais forte que as outras, a saber, um desmoronamento completo do sistema capitalista em consequência das suas contradições".

E refuta essa objecção nestes termos:

"Uma derrocada completa e mais ou menos geral do sistema de produção actual é a consequência do desenvolvimento crescente, não o mais provável, mas o mais improvável, porque este aumenta, por um lado, a sua capacidade de adaptação e por outro lado – ou melhor, simultaneamente – a diferenciação da indústria". (Neue Zeit, 1897-1898, V, 18, p. 555).

Mas então uma questão fundamental se põe: esperaremos pelo objectivo final para onde tendem as nossas aspirações e, se sim, porquê e como? Para o socialismo científico a necessidade histórica da revolução socialista é sobretudo demonstrada pela anarquia crescente do sistema capitalista que o envolve num impasse. Mas, se se admite a hipótese de Bernstein: a evolução do capitalismo não se orienta para uma derrocada – e o socialismo deixa de ser uma necessidade objectiva. Aos fundamentos científicos do socialismo restam os dois outros lados do sistema capitalista: a socialização do processo de produção e a consciência de classe do proletariado. Era ao que Bernstein aludia na passagem seguinte: [Recusar a tese do desmoronamento do capitalismo] não enfraquece de modo algum a força de convicção do pensamento socialista. Porque, examinando de mais perto todos os factores de eliminação ou de modificação das crises anteriores, constatamos que são simplesmente premissas ou mesmos germens da socialização da produção e da troca". (Neue Zeit, 1897-1898, V, 18, p. 554).

Num relance, apercebemo-nos da inexactidão destas conclusões. Os fenómenos apontados por Bernstein como sinais de adaptação do capitalismo: as fusões, o crédito, o aperfeiçoamento dos meios de comunicação, a elevação do nível de vida da classe operária, significam simplesmente isto: anulam, ou pelo menos atenuam, as contradições internas da economia capitalista; impedem que se desenvolvam e se exasperem. Assim, a desaparição das crises significa a abolição do antagonismo entre a produção e a troca numa base capitalista; assim, a elevação do nível de vida da classe operária, seja qual for, mesmo quando uma parte desses operários passa a pertencer à classe média, significa atenuação do antagonismo entre o capital e o trabalho. Se as fusões, o sistema de crédito, os sindicatos, etc., anulam as contradições do capitalismo, salvando por esse meio o sistema capitalista da catástrofe (por isso Bernstein chama-Ihes "factores de adaptação") como podem constituir, ao mesmo tempo, as "premissas ou mesmo os germens" do socialismo? É indubitàvelmente necessário compreender que fazem ressaltar mais claramente o carácter social da produção. Mas, conservando-lhe a forma capitalista, tornam supérflua a passagem dessa produção socializada a produção socialista. Assim, podem ser as premissas e os germens do socialismo no sentido teórico e não no sentido histórico do termo, fenómenos que sabemos, pela nossa concepção do socialismo, serem-lhe aparentados mas não suficientes para o instaurar e muito menos para o tornar supérfluo. Só resta, como fundamento do socialismo, a consciência de classe do proletariado. Mas mesmo esta não reflecte no plano intelectual as cada vez mais flagrantes contradições internas do capitalismo ou a eminência do seu desmoronamento, porque os "factores de adaptação" impedem que se produza, reduzindo-se portanto a um ideal, cuja força de convicção repousa nas perfeições que se lhe atribuem.

Numa palavra: esta teoria fundamenta o socialismo num "conhecimento puro", ou para usar uma terminologia clara, é o fundamento idealista do socialismo. Excluindo a necessidade histórica, não deixa de se enraizar no desenvolvimento material da sociedade. A teoria revisionista é obrigada a uma alternativa: ou a transformação socialista da sociedade é consequência, como anteriormente, das contradições internas do sistema capitalista e, então, a evolução do sistema inclui também o acerbamento das suas contradições, acabando necessàriamente um dia ou outro na derrocada sob uma ou outra forma e, nesse caso, os "factores de adaptação" são ineficazes e a teoria da catástrofe é justa. Ou os "factores de adaptação" são capazes de evitar realmente o desmoronamento do sistema capitalista e assegurar a sua sobrevivência, portanto, anular essas contradições e, nesse caso. o socialismo deixa de ser uma necessidade histórica e, a partir daí, é tudo o que se queira, excepto o resultado do desenvolvimento material da sociedade. Este dilema engendra um outro: ou o revisionismo tem razão quanto à evolução do capitalismo – e nesse caso a transformação socialista da sociedade é uma utopia – ou o socialismo não é uma utopia e. nesse caso, a teoria dos "factores de adaptação" perde a sua base.

That is the question: este é o problema. 2. A Adaptação do Capitalismo

Os mais eficazes meios de adaptação da economia capitalista são a instituição do crédito, a melhoria dos meios de comunicação e as organizações patronais (2).

Comecemos pelo crédito. Das suas múltiplas funções na economia capitalista, a mais importante é a de aumentar a capacidade extensiva da produção e a de facilitar a troca. No caso em que a tendência interna da produção capitalista para um crescimento ilimitado ultrapassa os limites da propriedade privada, as dimensões restritas do capital privado, o crédito aparece como o meio de ultrapassar esses limites no quadro do capitalismo, intervém para concentrar um grande número de capitais privados num só – é o sistema das sociedades por acções – e para assegurar aos capitalistas a utilização de capitais estrangeiros – é o sistema de crédito industrial. Por outro lado, o crédito industrial acelera a troca das mercadorias, por conseguinte o refluxo do capital no circuito de produção. Percebe-se fàcilmente a influência que exercem essas duas funções essenciais do crédito na formação das crises. Sabe-se que as crises resultam da contradição entre a capacidade de extensão, a tendência expansionista da produção por um lado, e a capacidade restrita de consumo do mercado por outro lado, nesse caso o crédito é precisamente, vimo-lo já, o meio especifico de destruir essa contradição tantas quantas as vezes possíveis. Em primeiro lugar, aumenta a capacidade de extensão da produção em proporções gigantescas; é a força motriz interna que a leva a ultrapassar constantemente os limites do mercado. Mas é uma faca de dois gumes. Na sua qualidade de factor de produção, contribui para provocar a superprodução, na sua qualidade de factor de troca só pode, durante a crise, ajudar na destruição radical das forças produtivas que por ele foram movimentadas. Desde os primeiros sintomas de estrangulamento do mercado, o crédito funde-se, abandona a sua função de troca precisamente no momento em que seria indispensável; revela a sua ineficácia e inutilidade quando ainda existe, e contribui, no decurso da crise, para reduzir ao mínimo a capacidade de consumo do mercado. Citámos os dois efeitos principais do crédito, actuando diversamente na formação das crises. Não somente oferece aos capitalistas a possibilidade de recorrer aos capitais estrangeiros, mas encoraja-os a utilizarem activamente e sem escrúpulos a propriedade alheia, ou, dito de outra maneira, incita a especulações arrojadas. Assim, na qualidade de factor secreto da troca de mercadorias, não só agrava a crise, mas ainda facilita a sua aparição e extensão, fazendo da troca um mecanismo extremamente complexo e artificial, tendo por base real um mínimo de dinheiro-metal, facto que, na primeira ocasião, provoca perturbações nesse mecanismo. Desta forma, o crédito em vez de contribuir para destruir ou mesmo atenuar as crises é, pelo contrário, um seu agente poderoso. Não pode ser de outra maneira. A função específica do crédito consiste – exposta muito esquematicamente – em corrigir tudo o que o sistema capitalista pode ter de rigidez, introduzindo-lhe a elasticidade possível, em tornar todas as forças capitalistas extensíveis, relativas e sensíveis. Só consegue, evidentemente e por isso mesmo, facilitar e agudizar as crises que se definem como o choque periódico entre as forças contraditórias da economia capitalista.

Isto conduz-nos a um outro problema: como pode aparecer o crédito como um "factor de adaptação" do capitalismo? Qualquer que seja a forma sob a qual se imagine essa adaptação, a sua função só pode consistir na redução de um qualquer antagonismo do capitalismo, resolvendo ou atenuando uma contradição, desbloqueando as forças gripadas em tal e tal ponto do mecanismo. Ora, se existe um meio para agudizar no mais alto grau as contradições do capitalismo actual, esse meio é exactamente o crédito. Agrava a contradição entre a produção e a troca, favorecendo no máximo a tendência expansionista da produção, paralisando a troca na primeira ocasião. Agrava a contradição entre a apropriação e a propriedade, separando a produção da propriedade, transformando o capital em capital social, mas por outro lado, dá a uma parte do lucro a forma de interesse do capital, reduzindo-a a um simples título de propriedade. Agrava a contradição entre as relações de propriedade e as relações de produção, expropriando um grande número de pequenos capitalistas e concentrando forças produtivas consideráveis nas mãos de alguns. Agrava a contradição entre o carácter social da produção e o carácter privado da propriedade capitalista, tornando necessária a intervenção do Estado na produção (criação de sociedades por acções) .

Numa palavra, o crédito só consegue reproduzir as contradições polares do capitalismo, agudiza-as, acelera a produção que o precipitará no enfraquecimento, no desmoronamento. O primeiro meio de adaptação do capitalismo quanto ao crédito devia ser a supressão do crédito, a abolição dos seus efeitos. Tal como é, não constitui de modo algum um meio de adaptação, mas um factor de destruição com consequências profundamente revolucionárias. Esse carácter revolucionário que conduz o crédito a ultrapassar o capitalismo não terá ido ao ponto de inspirar planos de reforma, de espírito mais ou menos socialista? Basta olhar para esse grande representante do crédito que foi em França um Isaac Péreire cujos planos de reformas fizeram surgir, segundo Marx, como meio-profeta, meio-canalha.

Com esta mesma fragilidade aparece, quando o examinamos de mais perto, o segundo factor de adaptação da produção – as organizações patronais. Pela teoria de Bernstein deviam, regulamentando a produção, pôr fim à anarquia e prever a aparição das crises. Sem dúvida que o desenvolvimento das fusões e dos monopólios é um fenómeno que ainda não foi estudado em todas as suas diversas consequências económicas. É um problema que só se pode resolver recorrendo à doutrina marxista. De qualquer modo, uma coisa é certa: as associações patronais não conseguiram deter a anarquia capitalista, na medida em que as fusões, os monopólios, etc., se tornariam, mais ou menos aproximadamente, uma forma de produção generalizada ou dominante. Ora a própria natureza das fusões a torna impossível. O objectivo económico final e a acção das organizações é, excluindo a concorrência no interior de um sector da produção, influenciar a repartição do lucro bruto realizado no mercado, de maneira a aumentar a parte desse sector da indústria à custa de outros, precisamente por estar generalizada Prolongada a todos os sectores industriais importantes, anula por si própria o seu efeito.

Mesmo nos limites da sua aplicação prática, as associações patronais estão muito longe de suprimir a anarquia, bem pelo contrário. Normalmente as concentrações só obtêm esse aumento de lucro no mercado interno relacionando-o com o estrangeiro, com uma taxa de lucro muito inferior à parte do capital excedentário que não podem utilizar para as necessidades internas, quer dizer. vendendo as suas mercadorias no estrangeiro a melhor preço que no interior do país. Dai resulta um agravamento da concorrência no estrangeiro, um reforço da anarquia no mercado mundial, exactamente o contrário do que se propunham conseguir. É o que prova, entre outras, a história mundial da indústria do açúcar.

Finalmente, e generalizando a sua qualidade de fenómenos ligados ao modo de produção capitalista, as associações patronais podem apenas ser consideradas como uma fase precisa da evolução capitalista. De facto, as concentrações não passam de um paliativo para a baixa fatal da taxa de lucro em certos sectores da produção. Quais os métodos utilizados pelas concentrações para obterem esse efeito? No fundo não se trata de pôr em pousio uma parte do capital acumulado, quer dizer, o mesmo método utilizado sob outra forma em períodos de crise. Ora, do remédio à doença só existe uma diferença de grau e o remédio só pode passar por um mal menor durante um certo tempo. No dia em que as saídas tendam a estreitar-se, com o mercado mundial desenvolvido ao máximo e esgotado pela concorrência dos países capitalistas, – e não se pode negar que esse dia chegará mais tarde ou mais cedo – a imobilização parcial ou forçada do capital terá dimensões consideráveis: o remédio transformar-se-á no próprio mal e o capital, fortemente socializado pela organização e concentração, transformar-se-á novamente em capital privado. Enfrentando as dificuldades crescentes para encontrar um lugar no mercado, cada parte privada do capital preferirá tentar isoladamente a sua oportunidade. Nesse momento, as organizações rebentam como balões, dando lugar a um agravamento da concorrência (3).

No conjunto, as fusões, tal como o crédito, aparecem como fases bem determinadas do desenvolvimento que, em última análise, apenas contribuem para aumentar a anarquia do mundo capitalista, manifestando em si próprias e levando à exaustão todas as suas contradições internas. Agravam o antagonismo existente entre o modo de produção e o modo de troca, agudizando a luta entre produtores e consumidores; temos um exemplo nos Estados Unidos da América. Agravam, por outro lado, a contradição entre o modo de produção e o modo de apropriação, opondo à classe operária, da maneira mais brutal, a força superior do capital organizado, conduzindo assim ao extremo o antagonismo entre o capital e o trabalho. Por fim, agravam a contradição entre o carácter internacional da economia capitalista mundial e o carácter nacional do Estado capitalista, porque sempre se fazem acompanhar de uma guerra alfandegária generalizada, exasperando assim os antagonismos entre os diferentes Estados capitalistas. A tudo isto acresce a influência revolucionária exercida pelas fusões na concentração da produção, no seu aperfeiçoamento técnico, etc.

Assim, quanto à acção exercida na economia capitalista, as concentrações industriais, os monopólios, não aparecem como "factor de adaptação" apropriado para lhe atenuar as contradições, mas antes como um dos meios que inventa para agravar a sua própria anarquia, desenvolver as suas contradições internas, acelerar a sua própria ruína.

Entretanto, se o sistema de crédito, se as concentrações, etc., não eliminam a anarquia do mundo capitalista, como se explica que, durante dois decénios, desde 1873, não se tenha produzido nenhuma grande crise comercial? Não será isso um sinal de que o modo de produção capitalista se adaptou – pelo menos nas suas linhas fundamentais – às necessidades da sociedade, contràriamente à análise feita por Marx? A resposta não se fez esperar. Mal Bernstein arrumara, em 1898. a teoria marxista das crises entre as ideias antigas, rebentou uma violenta crise geral em 1900; sete anos depois uma nova crise abalou os Estados Unidos, atingindo todo o mercado mundial. Assim, a teoria da "adaptação" do capitalismo foi desmentida por factos eloqüentes. O próprio desmentido demonstrou que aqueles que abandonavam a teoria marxista das crises, pela única razão que nenhuma crise tinha rebentado no "prazo" previsto para que isso sucedesse, tinham confundido a essência dessa teoria com um dos seus aspectos exteriores secundários: o ciclo dos dez anos. Ora, a fórmula do período decenal, fechando todo o ciclo da indústria capitalista, era para Marx e Engels, nos anos 60 e 70, uma simples constatação dos factos: esses factos não correspondiam a uma lei natural, mas a uma série de circunstâncias históricas determinadas; estavam ligados à extensão por saltos, da esfera de influência do jovem capitalismo.

A crise de 1825 foi de facto o resultado dos grandes investimentos de capitais para a construção de estradas, canais e fábricas de gás que se realizaram no decurso do precedente decénio e principalmente em Inglaterra onde rebentou a crise. Da mesma maneira, a crise seguinte, de 1836 a 1839, foi consequência de investimentos formidáveis na construção de meios de transporte. É sabido que a crise de 1847 foi provocada pelo impulso febril da construção dos caminhos de ferro ingleses (de 1844 a 1847, quer dizer, em somente três anos, o Parlamento inglês cedeu concessões das linhas de caminho de ferro por um valor de quase 15 biliões de taleres). Por consequência, nesses três casos, são as diferentes e novas formas de expansão da economia capitalista, a criação das novas bases do desenvolvimento capitalista que estão na origem das crises. Em 1857, assiste-se à brusca abertura de novos mercados para a indústria europeia na América e na Austrália, logo a seguir à descoberta das minas de ouro: depois foi, sobretudo em França, na esteira do exemplo inglês, a construção de numerosas linhas de caminho de ferro (de 1852 a 1856 construíram-se, em França, por 250.000 francos, novas linhas de caminho de ferro). Finalmente, a grande crise de 1873 foi, como se sabe, uma consequência directa da criação e expansão brutal da grande indústria na Alemanha e na Áustria, que se seguiram aos acontecimentos políticos de 1866 e 1871.

De cada vez, isso aconteceu pela expansão brusca da economia capitalista que esteve na origem dessas crises comerciais, e não em consequência de limitações do seu âmbito nem do seu esgotamento. A periodicidade decenal dessas crises internacionais é um facto puramente exterior, um acaso. O esquema marxista da formação das crises, tal como Engels e Marx o expuseram, o primeiro no Anti-Dühring, o segundo no livro I e livro III do Capital, só se explica de maneira ajustável a essas crises na medida em que revela o seu mecanismo interno e as suas causas gerais e profundas; pouco importa que essas crises se repitam todos os dez anos ou todos os cinco, ou ainda, em alternância; todos os vinte e todos os oito anos. Mas o que melhor demonstra a inexactidão da teoria bernsteiniana, é o facto de terem sido precisamente os países onde os famosos "factores de adaptação" capitalistas (o crédito, os meios de informação e os monopólios) estão mais desenvolvidos, que se ressentiram com maior violência dos efeitos da crise de 1907-1908.

A ideia de que a produção capitalista poderia "adaptar-se" à troca implica uma de duas coisas: ou o mercado mundial cresce sem limites, até ao infinito, ou, pelo contrário, trava o desenvolvimento das forças produtivas para que não ultrapassem os limites do mercado. A primeira hipótese esbarra com uma impossibilidade material, à segunda opõe-se os progressos constantes da técnica em todos os sectores da produção, originando todos os dias novas forças produtivas.

Fica um fenómeno que, segundo Bernstein, contrariaria a tendência indicada do desenvolvimento capitalista: é a "falange invulnerável" das empresas médias. Vê-se na sua existência uma indicação minimizadora da influência revolucionária do desenvolvimento da grande indústria na concentração das empresas, que não é acreditável para os defensores da "teoria da catástrofe". É ainda aqui vítima de um mal entendido que ele próprio engendrou. Na realidade, seria compreender muito mal o desenvolvimento da grande indústria se se imaginasse que conduziria necessàriamente à progressiva desaparição das empresas médias.

No curso geral do desenvolvimento capitalista, os pequenos capitais desempenham o papel, na teoria marxista, de pioneiros da revolução técnica, e isso de maneira dupla: em primeiro lugar no respeitante a novos métodos de produção nos sectores antigos fortemente enraizados, depois pela criação de novos sectores de produção inexplorados pelos grandes capitais.

Ter-se-ia procedido mal ao pensar a história das empresas médias como uma linha recta descendente que iria do declínio progressivo à desaparição total. A evolução real é ainda aqui dialéctica; oscila constantemente entre as contradições. As classes médias capitalistas encontram-se, como a classe operária, sob a influência de duas tendências antagónicas, uma ascendente, outra descendente. A tendência descendente é o crescimento contínuo da escala de produção que ultrapassa periodicamente o quadro dos capitais médios, desviando-os regularmente do campo da concorrência mundial. A tendência ascendente é constituída pela depreciação periódica do capital existente, o que faz baixar por um certo tempo a escala da produção segundo o valor do capital mínimo necessário, tal como a penetração da produção capitalista em novas empresas. É preciso não encarar a luta das empresas médias contra o grande capital como uma batalha em forma, onde a parte mais fraca veria diminuir cada vez mais e fundir as suas tropas em número absoluto: é principalmente como se os pequenos capitais fossem periodicamente ceifados para apressar o seu florescimento a fim de serem novamente ceifados pela grande indústria. Entre as duas tendências que disputam a sorte das classes médias capitalistas, a tendência descendente é, em última análise, a dominante. A evolução é, neste caso, a inversa da classe operária. Não se manifesta necessàriamente por uma diminuição absoluta das empresas médias; pode haver: 1º, um aumento progressivo do capital mínimo necessário para o funcionamento das empresas dos anteriores sectores de produção; 2º, uma diminuição constante do intervalo de tempo durante o qual os pequenos capitais detêm a exploração dos sectores de produção. Daí resulta, para o pequeno capital individual, uma transformação cada vez mais rápida dos métodos de produção e da natureza dos investimentos. Para a classe média no seu conjunto resulta uma aceleração do metabolismo social.

Bernstein sabe-o muito bem e constata-o. Mas o que parece esquecer é ser ela a própria lei do movimento das empresas médias capitalistas. Se se admitir que os pequenos capitais são os pioneiros do progresso técnico, o motor essencial da economia capitalista, deve concluir-se que os pequenos capitais acompanham necessàriamente o desenvolvimento do capitalismo, porque fazem parte integrante dele e apenas com ele desaparecerão. A desaparição progressiva das empresas médias – na estreita acepção estatística de que fala Bernstein – só significaria não a tendência revolucionária do desenvolvimento capitalista, como pensa, mas, pelo contrário, uma paragem, a letargia desse desenvolvimento. "Taxa de lucro, isto é, o incremento proporcional do capital, diz Marx, é o mais importante para todos os novos investidores de capitais agrupados independentemente. Assim que a formação do capital caísse totalmente nas mãos de um grupo de grandes capitais totalmente constituídos, o fogo vivificador da produção extinguir-se-ia – entraria em torpor". (Capital, livro III, cap. 15, 2, tomo X, p. 202, tradução Molitor). 3. A Realização do Socialismo Pelas Reformas Sociais

Ao recusar a teoria da catástrofe, Bernstein recusa-se a encarar a derrocada do capitalismo como via histórica conduzindo à realização da sociedade socialista. Qual é a via para os teóricos da "adaptação do capitalismo"? Bernstein faz apenas breves alusões a essa questão a que Conrad Schmidt procurou responder detalhadamente, dentro do espírito de Bernstein (ver o Vorwästs de 20 de Fevereiro de 1898, revista dos livros) .Na óptica de Conrad Schmidt "a luta sindical e a luta política pelas reformas teriam como resultado um controlo social cada vez mais directo sobre as condições de produção" e chegariam a "restringir cada vez mais, por meio da legislação, os direitos do proprietário do capital, reduzindo-o à condição de simples administrador" até ao dia em que finalmente "levará ao capitalista, no limite da sua resistência, vendo a sua propriedade perder progressivamente o valor para si, a direcção e a administração da exploração" até se introduzir finalmente a exploração colectiva.

Em resumo, os sindicatos, as reformas sociais e, acrescenta Bernstein, a democratização política do Estado, são os meios para realizar progressivamente o socialismo.

Comecemos pelos sindicatos: a sua função principal – ninguém a expôs melhor que o próprio Bernstein, em 18911 na Neue Zeit – consiste em permitir aos operários a realização da lei capitalista dos salários, quer dizer a venda da força de trabalho ao preço conjuntural do mercado. Os sindicatos servem o proletariado utilizando no seu próprio interesse, a cada instante, essas conjunturas do mercado. Mas as próprias conjunturas, isto é, por um lado a procura da força de trabalho determinada pelo estado da produção e, por outro, a oferta da força de trabalho criada pela proletarização da classe operária, enfim, o grau de produtividade do trabalho, estão situadas fora da esfera de influência dos sindicatos. Assim, esses elementos não podem suprimir a lei dos salários. Podem, na melhor das hipóteses, manter a exploração capitalista no interior dos limites "normais" determinados em cada momento pela conjuntura, mas estão longe do processo de suprimir a exploração em si-mesma, mesmo que progressivamente.

É verdade que Conrad Schmidt considera o sindicalismo actual como estando "num fraco estado inicial", e espera que, no futuro, o "movimento sindical exerça uma influência reguladora progressiva na produção". Mas essa influência reguladora na produção só pode ser entendida de duas maneiras: trata-se de intervir no domínio técnico do processo, ou de fixar as próprias dimensões da produção. De que natureza poderá ser, rios dois campos, a influência dos sindicatos? É evidente que no concernente à técnica da produção, o interesse do capitalismo coincide até certo ponto com o progresso e o desenvolvimento da economia capitalista. É a necessidade vital que o impele a aperfeiçoar-se tecnicamente. Mas a situação do operário individual é absolutamente inversa: toda a transformação técnica se opõe aos interesses dos operários directamente implicados e agrava a sua situação imediata, depreciando a força do trabalho, tornando o trabalho mais intensivo, mais monótono, mais penoso. Na medida em que o sindicato pode intervir na técnica de produção, só o pode evidentemente fazer nesse sentido, quer dizer, ordenando a atitude de cada grupo operário directamente interessado, por consequência opondo-se necessàriamente às inovações. Nesse caso. não se trata do interesse global da classe operária nem da sua emancipação, que coincide sobretudo com o progresso técnico, quer dizer, com o interesse de cada capitalista, mas, muito pelo contrário, de uma defesa de interesses orientada no sentido da reacção. Com efeito, tais intervenções no domínio técnico reencontram-se não no futuro, onde os procura Conrad Schmidt, mas no passado do movimento sindical. São característicos da mais antiga fase do trade-unionismo inglês (até metade dos anos de 1860), onde se encontram sobrevivências corporativas da Idade Média, que se inspiravam no princípio caduco do "direito adquirido num trabalho conveniente", segundo a expressão de Webb, na sua teoria e prática dos sindicatos ingleses (t. II, p. 100 e seguintes). A tentativa dos sindicatos para fixar as dimensões da produção e dos preços das mercadorias é, muito pelo contrário, um fenómeno recente. Só que a vimos aparecer nos últimos tempos, mais uma vez e somente em Inglaterra (ibid., t. II, p. 115 e seg.). É de inspiração e tendência análogas às precedentes. A que se reduz com efeito a participação activa dos sindicatos na fixação das dimensões e do custo de produção das mercadorias? A uma concentração, reunindo os operários e os empresários contra o consumidor, a utilizar contra os empresários concorrentes medidas coercivas que nada devem aos métodos da associação patronal ordinária. Já não se trata aí de um conflito entre o trabalho e o capital, mas de uma luta travada solidàriamente pelo capital e pela força do trabalho contra a sociedade consumidora. Se ajuizarmos do seu valor social, é um empreendimento reaccionário, não se pode constituir como um estádio da luta para a emancipação do proletariado, porque é o oposto de uma luta de classes; se ajuizarmos do seu valor prático, é uma utopia: basta um relance para se ver que não pode ser alargada a grandes sectores da produção, trabalhando para o mercado mundial.

A actividade dos sindicatos reduz-se, essencialmente, à luta para aumento dos salários e para a redução do tempo de trabalho, procura unicamente ter uma influência reguladora sobre a exploração capitalista, segundo as flutuações do mercado; toda a intervenção no processo de produção é-Ihe, pela própria natureza das coisas, interdita. Mas, além do mais, o movimento sindical desenvolve-se num sentido oposto ao da hipótese de Conrad Schmidt: tende a cortar totalmente o mercado de trabalho de qualquer contacto directo com o resto do mercado. Citemos um exemplo característico dessa tendência: toda a tentativa para ligar directamente o contrato de trabalho com a situação geral da produção, pelo sistema de escala móvel de salários, é ultrapassada pela evolução histórica, e as trade-unions afastam-se cada vez mais dela (Webb, ibid., p. 115). Mesmo no interior dos limites da sua esfera de influência, o movimento sindical não aumenta indefinidamente a sua expansão, como o suponha a teoria da adaptação do capitalismo. Muito pelo contrário. Se se examinarem vários longos períodos de desenvolvimento social, é-se obrigado a constatar que, no conjunto, vamos enfrentar uma época não de expansão triunfante, mas de dificuldades crescentes para o movimento sindical. As reformas chocam-se algures com os limites dos interesses do capital. Claro que Bernstein e Conrad Schmidt consideram que o movimento sindical actual é um "fraco estádio inicial"; esperam, para o futuro, reformas que se desenvolvam até ao infinito, para maior bem da classe operária. Aí, cedem à mesma ilusão em que acreditam, quando consideram a expansão ilimitada do sindicalismo. Quando o desenvolvimento da indústria atingir o seu apogeu e o mercado mundial iniciar a fase descedente, a luta sindical tornar-se-á difícil: 1º, porque as conjunturas objectivas do mercado serão desfavoráveis à força do trabalho, a procura da força de trabalho aumentará mais lentamente e a oferta mais ràpidamente, o que não é o caso actual; 2º, porque o próprio capital para se compensar das perdas sofridas no mercado mundial, se esforçará por reduzir a parte do produto pertencente aos operários. A redução dos salários não é, em resumo, segundo Marx, um dos principais meios de travar a baixa das taxas de lucro? (ver Marx, Capital, livro III, cap. XIV, 2, Tomo X, p, 162). A Inglaterra oferece-nos o exemplo do princípio do segundo estádio do movimento sindical. Nessa fase, a luta reduz-se necessàriamente e cada vez mais à simples defesa dos direitos adquiridos e mesmo isso é cada vez mais difícil. Esta é a tendência geral da evolução cuja contrapartida deve ser o desenvolvimento da luta de classe política e social.

Conrad Schmidt comete o mesmo erro de perspectiva histórica no referente à reforma social: espera que "obrigue a classe capitalista com a ajuda das coalizões operárias sindicais, às condições em que possa adquirir a força de trabalho". É à reforma social assim compreendida, que Bernstein assimila a legislação social, considerando-a um bocado de "controlo social" e como tal um bocado de socialismo. Da mesma maneira, Conrad Schmidt chama ao falar das leis de protecção operária: "controlo social"; depois de ter transformado, do mesmo modo e com felicidade, o Estado em sociedade, acrescenta. com uma confiança magnífica: "quer dizer a classe operária". São vítimas da mesma ilusão, quando acreditam fervorosamente numa expansão ilimitada do sindicalismo.

A teoria da realização progressiva do socialismo por intermédio de reformas sociais implica – e é aí que se encontra o seu fundamento – um certo desenvolvimento objectivo tanto da propriedade capitalista como do Estado. No referente à primeira, o esquema do desenvolvimento futuro tende, segundo Conrad Schmidt, a "restringir progressivamente os direitos do proprietário do capital, reduzindo-o a um papel de simples administrador". Para compensar a pretensa impossibilidade de destruir de uma só vez a propriedade dos meios de produção, Conrad Schmidt inventa uma teoria de expropriação progressiva. Imagina que o direito de propriedade se divide em "direito supremo de propriedade" atribuído à "sociedade" e obrigado, segundo ele, a alargar-se sempre mais, e direito de usufruto que, nas mãos do capitalismo, se reduzirá cada vez mais à simples gestão da empresa. Ora, de duas coisas, uma: ou essa construção teórica não passa de uma inocente figura de retórica a que não se dá a mínima importância e então a teoria da expropriação progressiva perde todo o fundamento; ou representa, a seus olhos, o verdadeiro esquema de evolução jurídica; mas, neste caso, engana-se de uma ponta à outra. A decomposição do direito de propriedade em diversas competências jurídicas, a que Conrad Schmidt recorre para engendrar a sua teoria da "expropriação progressiva" do capital, caracteriza a sociedade feudal baseada na economia natural: a repartição do produto social entre as diferentes classes da sociedade praticava-se naturalmente e fundamentava-se nas relações pessoais do senhor feudal com os seus vassalos. Em compensação, a passagem à produção mercantil e a dissolução de todas as ligações pessoais entre os diversos participantes no processo de produção reforçou as relações entre o homem e a coisa, quer dizer. a propriedade privada. A partir desse momento, a repartição já não se fundamentava em relações pessoais, mas realizava-se através dos meios de troca; os diferentes direitos de participação na riqueza social não se mediam em fracções do direito de participação à riqueza social, não se medindo em fracções do direito de propriedade de um objecto, mas pelo valor conferido a cada um no mercado. De facto, a primeira grande transformação introduzida nas relações jurídicas na sequência do aparecimento da produção mercantil nas comunas urbanas da Idade Média foi a criação da propriedade privada absoluta no próprio núcleo das relações jurídicas feudais, a criação do regime de propriedade parcelada. Mas na produção capitalista essa evolução não parou. Por acréscimo, quanto mais o processo de produção é socializado, mais se fundamenta exclusivamente na troca e mais a propriedade privada capitalista adquire um carácter absoluto e sagrado. A propriedade capitalista, que era um direito sobre os produtos do seu próprio trabalho, transforma-se crescentemente num direito de apropriação do trabalho dos outros. Enquanto o capitalista gerava ele próprio a fábrica, a repartição contínua estava ligada, em certa medida, a uma participação pessoal no processo de produção. Mas, na medida em que se pode ultrapassar o capitalista para dirigir a fábrica – que é o caso das sociedades por acções – a propriedade do capital, enquanto participação na repartição, liberta-se completamente de qualquer relação pessoal com a produção, surge na sua forma mais pura e absoluta. É no capital-acção e no capital de crédito industrial que o direito de propriedade capitalista atinge a sua forma mais acabada.

O esquema histórico de Conrad Schmidt que mostra o proprietário passando da função de "proprietário a simples administrador" não corresponde de modo algum à tendência real da evolução; esta mostra-nos, pelo contrário, a passagem do proprietário e administrador a simples proprietário.

Aqui, encontra-se um paralelo entre Conrad Schmidt e Goethe: "o que se possui vê-o como longínquo, o que não existe torna-se, a seus olhos, a realidade".

O seu esquema histórico apresenta-nos uma evolução económica .que retrogradaria o estádio moderno da sociedade por acções para a manufactura ou mesmo oficina artesanal; mesmo juridicamente pretende levar o mundo capitalista para o seu berço, para o mundo feudal da economia natural.

Nessa perspectiva, o "controlo social", tal como é apresentado por Conrad Schmidt, aparece sobre outra focagem. O que hoje é a acção de "controlo social" – a legislação operária, controlo das sociedades por acções, etc., – não tem, de facto, nenhuma relação com uma participação no direito de propriedade, com uma "propriedade suprema" da sociedade. A sua função não é limitar a propriedade capitalista, mas, pelo contrário, protegê-la. Ou ainda – economicamente falando – não constitui um ataque à exploração capitalista, mas uma tentativa de a normalizar. Quando Bernstein põe a questão de saber se esta ou aquela lei de protecção operária é mais ou menos socialista, podemos responder-lhe que a melhor das leis de protecção operária tem mais ou menos tanto socialismo como as disposições municipais de limpeza das ruas e o acendimento dos bicos de gás – que também revelam o "controlo social".

Notas:

(1) Cada Estado (Land) do Império Alemão tinha a sua Constituição e o seu Parlamento (Landstag) . Depois da considerável expansão do movimento socialista, e desde a abolição da lei de excepção, o Saxe instaurou um sistema eleitoral análogo ao existente na Prússia baseado nas categorias do rendimento (Drelklassenwahl).

(2) Rosa Luxemburg dá esta designação às diversas formas modernas de concentração do capital: trusts, concentrações, etc. –(N. T.).

(3) Numa nota ao ,livro III do Capital, F. Engels escreveu em 1894: "Desde que estas linhas foram escritas (1865), a concorrência aumentou consideràvelmente no mercado mundial, devido ao rápido desenvolvimento industrial de todos os países civilizados. especialmente na América e na Alemanha. A constatação do rápido e gigantesco crescimento das forças produtivas modernas ultrapassa em cada dia e cada vez mais as leis da troca capitalista das mercadorias, no quadro das quais essas forças se devem movimentar, e esta constatação impõe-se na hora actual com uma evidência progressivamente crescente, mesmo perante a consciência dos capitalistas. Esta constatação verifica-se sobretudo através de dois sintomas. Em primeiro lugar, na mania proteccionista que se generalizou e difere do anterior sistema .proteccionista principalmente por proteger em particular os artigos mais aptos para a exportação. Depois, nos monopólios através dos quais os fabricantes de grandes grupos totais de produção regulamentam a produção e, por consequência, os preços e os lucros. Note-se que essas experiências só são possíveis quando a situação económica é relativamente favorável. A primeira perturbação reduzi-Ias-á a nada e demonstrará que, embora a produção precise de ser regulamentada, não é certamente a classe capitalista que será chamada a fazê-Io. Enquanto esperam, esses monopólios em concentração só têm um objectivo: tomar todas as medidas para que os mais pequenos sejam engolidos pelos maiores e ainda mais ràpidamente que no passado". (Capital III, tomo IX, ’PP. 204- -205, tradução Molitor, ed. Costes)

Parte II 1. O Desenvolvimento Económico e o Socialismo(5)

A maior conquista da luta da classe proletária, no decurso do seu evoluir, foi descobrir que a realização do socialismo encontra apoio nos fundamentos económicos da sociedade capitalista. Até esse momento o socialismo que era um "ideal", objecto dos sonhos milenários da humanidade, tornou-se uma necessidade histórica.

Bernstein contesta a existência, na sociedade actual, desses fundamentos económicos do socialismo. A sua argumentação sobre este assunto sofreu uma evolução deveras interessante. A princípio, na Neue Zeit. constava simplesmente a rapidez do processo de concentração industrial e baseava-se numa comparação dos números de estatística profissional na Alemanha de 1895 e de 1882. Para poder adaptar esses resultados aos seus fins, foi obrigado a recorrer a procedimentos sumários e mecânicos. Mas, mesmo na melhor das hipóteses, Bernstein, demonstrando a sobrevivência tenaz das empresas médias, não podia enfraquecer minimamente a análise marxista. O marxismo não implica, como condição para a realização do socialismo, nem um certo ritmo de concentração industrial, quer dizer um prazo determinado para a realização do objectivo final do socialismo, nem, como o demonstramos, a desaparição absoluta dos pequenos capitais, ou por outras palavras, a desaparição da pequena burguesia.

Seguidamente, Bernstein fornece, no seu livro, novo material comprovativo, a saber: a estatística das sociedades por acções que, segundo ele, deveria demonstrar que o número de accionistas cresce constantemente e por consequência, a classe capitalista, em vez de diminuir numericamente, aumenta. É espantoso verificar até que ponto Bernstein conhece pouco os documentos existentes e como os utiliza mal na defesa da sua tese!

Se tinha procurado, fundamentando-se nas sociedades por acções, provas contra a lei marxista do desenvolvimento industrial, deveria citar outros números totalmente diferentes. Qualquer pessoa que conheça a história das sociedades por acções na Alemanha, sabe que o capital inicial por empresas diminui quase regularmente. Assim, antes de 1871, esse capital ascendia a cerca de 10,8 milhões de marcos, em 1871, não ultrapassava os 4,01 milhões de marcos, em 1873 – 3,8 milhões, de 1882 a 1887 menos de um milhão; em 1891 – 0,52 milhões e em 1892 ascendia a somente 0,62 milhões de marcos. Desde que esses números começaram a oscilar à volta de um milhão de marcos, chegaram mesmo a descer dos 1,78 milhões em 1895 a 1,19 milhões de marcos no decurso do primeiro semestre de 1897 (Van der Borght: Handwörterbuch der Staatswissenschaften, 1).

Eis os números espantosos: Bernstein podia deduzir toda uma tendência antimarxista do desenvolvimento, que seria a redução das grandes empresas e o retorno às pequenas empresas. Mas, neste caso, não importa o que se lhe poderia responder, porque essas estatísticas têm um valor de prova, deve-se provar que se reportam aos mesmos sectores da indústria; deve-se demonstrar que as pequenas empresas surgem em substituição das grandes empresas, e não em sectores onde predominem o capital familiar ou mesmo o artesanato ou ainda a empresa de minúsculas dimensões. Mas esta é uma prova que não se pode fazer, porque a substituição de inúmeras empresas médias ou pequenas por sociedade por acções só se pode explicar pela penetração, em novos sectores da produção, do sistema das sociedades por acções. É verdade que esse sistema, que inicialmente só se aplicava a um pequeno número de grandes empresas, adaptou-se progressivamente às médias e mesmo pequenas empresas (constatamos mesmo a constituição de sociedades por acções com menos de mil marcos de capital!).

Mas que significa, no plano económico, a cada vez maior utilização do sistema de sociedades por acções? Significa a socialização crescente da produção no interior do capitalismo, a socialização da grande, mas também da média ou pequena produção, por consequência qualquer coisa que não contradiz a teoria marxista mas, pelo contrário, a confirma da forma mais evidente.

Com efeito, se é necessário definir económicamente a produção das sociedades por acções, dir-se-á que esse fenómeno consiste em, por um lado, reunir um grande número de pequenas fortunas num grande capital de produção e, por outro, separar a produção da propriedade do capital; consequentemente, consegue ultrapassar de duas maneiras o modo de produção capitalista sem alterar os seus fundamentos capitalistas. Perante estes factos, o que significa a estatística citada por Bernstein do grande número de accionistas participando numa empresa? Prova simplesmente que hoje uma empresa capitalista não corresponde, como outrora, a um único proprietário do capital, mas a um número cada vez mais considerável de capitalistas e que, por consequência, a noção económica do "capitalista" não dissimula um indivíduo isolado, significa que o actual capitalista industrial é uma pessoa colectiva composta por centenas ou mesmo milhares de indivíduos, e que a própria categoria capitalista tornou-se, nos quadros da economia capitalista, uma categoria social, que se socializou.

Como explicar agora o erro de Bernstein que vê no fenómeno das sociedades por acções uma dispersão e não uma concentração do capital e que descobre uma extensão da propriedade capitalista onde Marx via muito pelo contrário, a "supressão dessa mesma propriedade?" Esse erro explica-se por uma confusão económica muito simples: para Bernstein a noção de capitalista abrange não uma unidade económica mas uma unidade fiscal e por capital não entende um factor de produção mas simplesmente uma certa fortuna em dinheiro. Por isso no exemplo que cita, o de um monopólio inglês siderúrgico, não vê a fusão de 12.300 indivíduos numa só pessoa colectiva, mas a de 12.300 capitalistas individuais; assim o seu engenheiro Schulze que recebeu do usufrutuário dos rendimentos Müler, à maneira de dote da mulher, "um grande número de acções" (p. 54) é a seus olhos um capitalista. É assim que todo o mundo lhe surge como um formigueiro de "capitalistas" (6) .Esta confusão herdada da economia vulgar serve de base teórica a Bernstein para uma "vulgarização" do socialismo. Transferindo a noção de capitalista da esfera de produção para a da propriedade e "falando de homens em vez de falar em empresários" (p. 53), Bernstein transfere, igualmente o socialismo do campo da produção para o campo das relações de fortuna; transforma as relações entre o capital e o trabalho em relações entre ricos e pobres.

Eis-nos atirados de Marx e Engels para o autor do Evangelho do pobre pecador, com a diferença que Weitling, com um autêntico instinto proletário, via precisamente nesse antagonismo entre ricos e pobres os antagonismos de classe na sua forma primária, e pretendia fazer dele uma alavanca do socialismo; Bernstein vê a realização do socialismo pela transformação dos pobres em ricos, quer dizer, na atenuação dos antagonismos de classe; e aí compromete-se numa via pequeno-burguesa.

É verdade que Bernstein não se limita à estatística dos rendimentos. Fornece-nos igualmente estatísticas das empresas em Vários países: a Alemanha, a França, a Inglaterra, a Suíça, a Áustria e os Estados Unidos. O que valem essas estatísticas? Não compara esses números dos diferentes períodos em cada país, mas de cada período nos diferentes países, não compara por consequência – à excepção da Alemanha onde retorna à velha comparação entre os anos 1895 e 1882 – a estatística de um determinado país em épocas diferentes, mas unicamente números absolutos para os diferentes países (para Inglaterra em 1891, para a França em 1894 e para os Estados Unidos em 1890, etc.). Chega à conclusão de que se "a grande exploração ainda hoje domina efectivamente a indústria, mas já só representa, incluindo as empresas que dela dependem, mesmo num país tão desenvolvido como a Prússia, mais ou menos metade da população ocupada na produção". O mesmo para a Alemanha, Inglaterra, Bélgica, etc.

O que demonstra não é evidentemente tal ou qual tendência do desenvolvimento económico, mas exclusivamente a relação absoluta entre forças de diferentes formas de empresas e de diferentes classes profissionais. Pretende provar dessa maneira a possibilidade de realizar o socialismo, mas a sua argumentação fundamenta-se na tese pela qual o que decide a resultante da batalha social é a relação entre as forças numéricas materiais dos elementos que se defrontam; por consequência, a única violência. Bernstein que anteriormente invectivara de todas as maneiras o blanquismo, cai no mais grosseiro erro blanquista. Com a diferença que os blanquistas que são de tendência social-revolucionária, partem do postulado da possibilidade de realização económica do socialismo e baseiam nesse postulado as hipóteses de vitória de uma revolução violenta, mesmo que levada a efeito por uma minoria; Bernstein, ao contrário conclui que uma maioria numérica insuficiente do povo conduz à impossibilidade da realização económica do socialismo. A social-democracia não espera realizar o seu objectivo final pela violência vitoriosa de uma maioria, e muito menos de uma superioridade numérica da maioria; é a necessidade económica – e a consciência dessa necessidade que conduzirá ao derrubamento do capitalismo pelas massas populares. A expressão mais visível dessa necessidade é a anarquia capitalista.

Quanto a esse problema fulcral da anarquia na economia capitalista, o próprio Bernstein não nega as grandes crises gerais mas nega as crises parciais ou nacionais. Ao faze-lo contesta que haja muita anarquia. Admite a existência de uma certa anarquia. É, para Bernstein, na economia capitalista como, para citar Marx, essa virgem louca com o seu filho "que era muito pequeno". Mas o azar é que num assunto desta natureza, muita ou pouca anarquia tudo vai dar rigorosamente ao mesmo. Se Bernstein admite a existência de um pouco de anarquia, o mecanismo da economia-mercantil provoca automàticamente a expansão monstruosa dessa anarquia – até ao afundamento do sistema. Mas, se Bernstein espera que, enquadrada nessa economia mercantil, essa pouca anarquia dê lugar à ordem e à harmonia, cai num dos erros fundamentais da economia burguesa vulgar, considerando o modo de troca independente do modo de produção.

Não pretendemos demonstrar aqui, em toda a sua extensão a espantosa confusão que Bernstein manifesta no seu livro sobre os mais elementares princípios de economia política. Mas há um ponto a tratar sobre a questão fundamental da anarquia capitalista que devemos esclarecer ràpidamente.

Bernstein declara que a lei do valor-trabalho de Marx é uma simples abstracção; esse termo, em economia política, tem claramente, para ele, o valor de uma injúria. Ora, se o trabalho é uma simples abstracção, "uma construção do espírito", todo o cidadão normal, tendo cumprido o serviço militar, pagando regularmente os seus Impostos, tem o mesmo direito que Marx de inventar uma patetice qualquer para fazer uma "construção do espírito" semelhante à lei do valor. "Marx tem tanto o direito de abstrair das qualidades da mercadoria para as transformar em simples encarnações de quantidade de trabalho humano, como os economistas da escola de Boehm – Jevons, em abstrair de todas as qualidades das mercadorias, considerando apenas a sua utilidade".

Por consequência, o trabalho social de Marx e a utilidade abstracta de Menger, são em sua opinião equivalentes, por serem dois casos de pura abstracção. Mas Bernstein esquece completamente que a abstracção de Marx não é uma invenção pura e simples, mas uma descoberta, saída não da cabeça de Marx, mas da economia mercantil. cuja existência não é imaginária, mas tem existência social real que pode ser retalhada, pesada e ter um valor atribuído em dinheiro. O trabalho humano abstracto que Marx descobriu não ser mais que dinheiro sob forma evoluída, é uma das descobertas mais geniais de Marx. No pólo oposto, para toda a economia política burguesa, do primeiro dos mercantilistas ao último dos clássicos, o dinheiro manteve o seu carácter místico que o transformou num enigma insolúvel.

A ideia da utilidade abstracta, acarinhada por Boehm e Jevons, é de facto e efectivamente uma construção do espírito, ou melhor, uma construção do nada intelectual, uma patetice de que não se pode responsabilizar nem a sociedade capitalista nem qualquer outra sociedade humana, mas exclusivamente a própria economia burguesa vulgar. Com essa maravilhosa "construção do espírito", Bernstein, Boehm e Jevons e toda a comunidade mística, podem continuar ainda, por mais uns vinte anos, perfeitamente tranquilos frente ao mistério do dinheiro, e não descobrirão mais do que já sabem todos os sapateiros: que o dinheiro é uma coisa "útil".

Assim Bernstein impediu-se de compreender, por qualquer processo, a teoria marxista do valor. Ora é muito claro para todos os que conheçam um mínimo da doutrina económica de Marx, que sem a lei do valor, o conjunto do sistema é incompreensível. Sejamos mais concretos: se não se compreende o carácter da mercadoria e da troca, a economia capitalista e as suas relações permanecem necessàriamente misteriosas.

Por que artes mágicas conseguiu Marx penetrar nos segredos mais profundos de todos os fenómenos capitalistas, resolvendo-os com a introdução de problemas que os majores investigadores da economia política burguesa, como Smith e Ricardo, nem sequer suspeitavam existir? Simplesmente porque concebeu a economia capitalista como um todo e um fenómeno histórico, cuja história se alongava não somente antes dela, como admitia totalmente a economia clássica, projectando-se ainda no futuro; é por ter considerado não apenas o passado, a economia feudal, mas também o futuro socialista. O segredo da teoria do valor em Marx, da sua análise do dinheiro, da sua teoria do capital, da taxa de lucro e por consequência de todo o sistema económico actual é a descoberta do carácter efémero e transitório da economia capitalista, do seu afundamento e por consequência – este é aqui o aspecto complementar – o objectivo final socialista. Sòmente porque Marx considerava a economia capitalista na sua qualidade de socialista, quer dizer, na perspectiva histórica, pôde decifrar os hieróglifos; e porque se colocava numa óptica socialista, para analisar cientificamente a sociedade burguesa, pôde formular os fundamentos científicos do socialismo.

É a partir do conhecimento de tudo isto que se torna necessário julgar as observações de Bernstein no fim do seu livro, onde se lamenta da "dualidade" "que se manifesta ao longo da obra monumental de Marx", "dualidade no carácter da obra que, se por um lado, pretende ser um estudo científico, pretende, por outro, provar uma tese anterior à redacção do livro, tese que se fundamenta num esquema pré-estabelecido contendo já o resultado, e que deveria ser a conclusão do próprio estudo. O retorno ao Manifesto comunista (quer dizer, ao objectivo final socialista! R. L.) demonstra a existência de um lastro de utopismo na doutrina de Marx" (p. 77).

Classificando a dualidade teórica de Marx de "sobrevivência do utopismo", Bernstein confessa infantilmente negar a dualidade histórica existente na sociedade burguesa, os antagonismos capitalistas de classe, confessa mesmo que o socialismo não passa a seus olhos de uma "sobrevivência do utopismo". O "monismo", a unidade de Bernstein, é a unidade do regime capitalista votado à eternidade, a unidade do socialista que renunciou ao objectivo final e vê na sociedade burguesa una e inabalável a última etapa da evolução da humanidade.

Mas porque ignora a dualidade da estrutura económica do capitalismo, o germen do socialismo, precisa para salvar o programa socialista pelo menos na sua forma, de recorrer à construção idealista, exterior à evolução económica e fazer do socialismo, de fase histórica determinada da evolução social que é de facto um princípio abstracto.

O princípio do cooperativismo de Bernstein, com o qual pretende ornamentar a economia capitalista, essa magra decantação do objectivo final do socialismo, aparece como uma concessão da sua teoria burguesa feita não pelo futuro socialista da sociedade, mas pelo passado socialista de Bernstein. 2. Os Sindicatos, as Cooperativas e a Democracia Política

O socialismo de Bernstein tende, já o vimos, a fazer participar os operários na riqueza social, a transformar os pobres em ricos. Que caminho segue para aí chegar? Nos artigos publicados na Neue Zeit e intitulados "Problemas do socialismo", só lhe fazia breves e muito vagas alusões. Em contrapartida no seu livro, fornece-nos todos os elementos desejáveis. O seu socialismo deve ser realizado por dois meios: pelos sindicatos ou, como diz, pela democracia económica e pelas cooperativas. Através dos primeiros quer suprimir o lucro industrial, pelos segundos o lucro comercial.

As cooperativas e sobretudo as cooperativas de produção são instituições de natureza híbrida dentro do capitalismo: constituem uma produção socializada em miniatura que é acompanhada por uma troca capitalista. Mas na economia capitalista a troca domina a produção; por causa da concorrência exige, para que a empresa possa sobreviver, uma impiedosa exploração da força do trabalho, quer dizer. a dominação completa do processo de produção pelos interesses capitalistas. Pràticamente, isso traduz-se numa necessidade de intensificação do trabalho, de encurtar ou prolongar a sua duração conforme a conjuntura, de contratar ou dispensar a força do trabalho conforme as necessidades do mercado, numa palavra, praticar todos os métodos, sobejamente conhecidos, que permitam a uma empresa capitalista sustentar a concorrência das outras empresas. Daí uma cooperativa de produção ter a necessidade, contraditória para os operários, de se governar a si própria com toda a autoridade absoluta necessária e de os seus elementos desempenharem entre si o papel de empresários capitalistas. Dessa contradição morre a cooperativa de produção, na acepção em que se torna uma empresa capitalista ou, no caso em que os interesses dos operários são mais fortes, se dissolve. Estes são os factos. O próprio Bernstein os constata mas, visivelmente sem os compreender, pois vê, como a senhora Potter-Webb, na falta de "disciplina" a causa da falência das cooperativas de produção em Inglaterra. O que aqui recebe a qualificação superficial e linear de "disciplina" não passa do regime absoluto que é inerente ao capital e que os operários não podem, evidentemente, utilizar contra si próprios (7).

Do que resulta que a cooperativa só pode assegurar a sua existência no seio da economia capitalista quando suprime, por um rodeio, a contradição que recebe entre o modo de produção e o modo de troca, subtraindo-se artificialmente às leis da livre concorrência. Só o pode fazer assegurando antecipadamente um mercado, um círculo constante de consumidores. A cooperativa de consumo fornece uma via. Eis a razão – é Bernstein que a revelada falência das cooperativas de produção autônomas, cuja existência só pode ser assegurada por uma cooperativa de consumo. Isto nada tem a ver com as cooperativas de compra e venda inventadas por Oppenheimer.

Verifica-se que a existência da cooperativa de produção liga-se, actualmente, à existência da cooperativa de consumo; do que resulta deverem as cooperativas de produção contentarem-se, no melhor dos casos, com pequenos mercados locais e limitarem-se aos produtos da primeira necessidade, de preferência, produtos alimentares. Todos os sectores mais importantes da produção capitalista: a indústria têxtil, mineira, metalúrgica, petrolífera, assim com as indústrias de construção de máquinas, de locomotivas e de navios estão antecipadamente excluídas da cooperativa de consumo e por consequência da cooperativa de produção. É por isso que, mesmo abstraindo do seu carácter híbrido, as cooperativas de produção não podem intervir numa reforma social geral, a realização geral implica a supressão do mercado mundial e o parcelamento da actual economia mundial em pequenos grupos de produção e de troca localizados; em suma: tratar-se-ia do retrocesso do capitalismo para a economia mercantil da Idade Média.

Mesmo nos limites da realização possível na sociedade actual, as cooperativas de produção seriam simples anexos das cooperativas de consumo; estas estariam no primeiro plano e apareceriam como a principal base da projectada reforma socialista. Por esse facto uma reforma socialista baseada no sistema das cooperativas abandona a luta contra o capital da produção, quer dizer, contra o sector fundamental da economia capitalista e contenta-se em dirigir os seus ataques contra o capital comercial, mais exactamente o pequeno e médio capital comercial. Só ataca os ramos secundários do tronco capitalista.

Quanto aos sindicatos que, na doutrina de Bernstein são o outro meio de lutar contra a exploração do capital, já demonstrámos que são incapazes de impor o domínio da classe operária no processo da produção e também no referente às dimensões de produção e seus processos técnicos.

Examinemos o aspecto puramente económlco do problema, ao que Bernstein chama "a luta do salário contra o lucro". Essa luta não se processa em abstracto, num espaço imaterial, mas no bem determinado quadro de leis dos salários que não pode destruir, mas sòmente realizar. Isso surge com clareza quando se examina o problema sob uma outra face e quando se traçam as coordenadas da questão da autêntica intervenção dos sindicatos. Bernstein atribui aos sindicados uma missão particular na luta pela emancipação da classe operária: são eles que devem travar a luta contra a taxa de lucro industrial, transformando-a progressivamente em taxa de salário; ora os sindicatos não têm nenhum poder real para poderem iniciar uma política de ofensiva económica contra o lucro porque, na verdade, não passam de uma defesa organizada pela força do trabalho contra os ataques do lucro, expressão da resistência da classe operária contra a tendência opressiva da economia capitalista. E isto por duas razões:

1º. Os sindicatos têm por tarefa organizar-se no mercado da força do trabalho; mas a organização é constantemente ultrapassada pelo processo de proletarização das classes médias que trazem permanentemente para o mercado de trabalho novos recrutas.

2º. Os sindicatos propõem-se melhorar as condições de existência, aumentar a parte de riqueza social que vai para a classe operária; mas essa parte é constantemente reduzida, com a fatalidade de um fenómeno natural, pelo crescimento da produtividade do trabalho. Para nos apercebermos disso, não é necessário ser marxista, é suficiente ter tido uma vez nas mãos o livro de Rodbertus intitulado: "Zur Beleuchtung der Sozialen Frage" "Para esclarecer a questão social". Devido a esses factores objectivos, que são a realidade da sociedade capitalista, as duas funções essenciais do sindicalismo transformam-se profundamente e a luta sindical é um autêntico trabalho de Sísifo. Esse trabalho de Sísifo é indispensável, se se quer que o operário receba a taxa de salário que lhe vem da situação conjuntural do mercado, que a lei capitalista se realize e que a tendência depressiva do desenvolvimento económico seja travada, ou mais exactamente, atenuada no seu efeito. Mas querer que os sindicatos consigam reduzir progressivamente o lucro em proveito do salário implica:

1º. Que cesse a proletarização das classes médias e o crescimento numérico da população operária.

2º. Que a produtividade do trabalho deixe de aumentar; no caso de essas condições sociais serem realizadas, tratar-se-ia ainda aqui – tal como para a economia cooperativa de consumo – de um retorno a uma economia anterior ao capitalismo.

Os dois meios com que Bernstein pretendia realizar a reforma socialista, a saber, cooperativas e sindicatos, revelam-se totalmente incapazes de transformar o modo de produção capitalista. Bernstein tinha disso consciência mais ou menos clara, mas encarava-os como meios de reduzir o lucro capitalista e de enriquecer os operários, o que equivalia a renunciar à luta contra o modo de produção capitalista e orientar o movimento socialista numa luta contra o modo de repartição capitalista. O próprio Bernstein definiu por várias vezes o seu socialismo como uma tentativa para introduzir um modo de repartição "justa", "mais justa" (p. 51 do seu livro) e mesmo "ainda mais justa" (Vorwärts, 26 de Março de 1809).

É verdade que o ferrão que atrai para o movimento socialista as massas populares é o modo de repartição "injusta" do regime capitalista. Lutando pela socialização de toda a economia, a social-democracia testemunha simultâneamente a sua aspiração natural e o desejo de uma repartição "justa" da riqueza social. Mas aprendemos com Marx que o modo de repartição de uma determinada época é a consequência natural do modo de produção dessa época: por consequência, a social-democracia intensifica a sua luta não contra o sistema de repartição no quadro da produção capitalista, mas visa suprimir a própria produção mercantil capitalista. Numa palavra, a social-democracia quer estabelecer um modo de repartição socialista suprimindo o modo de produção capitalista, enquanto o método de Bernstein consiste, pelo contrário, em combater o modo de repartição capitalista na esperança de conseguir estabelecer progressivamente, por esse mesmo meio, um modo de produção socialista.

Em que fundamenta Bernstein a reforma socialista? Em algumas das tendências determinadas da produção capitalista? Não, porque: 1º. Nega essas tendências e 2º. conforme sabemos pelo que precede, encara a transformação socialista da produção como a consequência de uma transformação da repartição e não o inverso. Os fundamentos do socialismo de Bernstein não são de ordem económica. Depois de ter invertido por completo a relação entre o objectivo e os meios do socialismo, depois de ter destruído esse fundamento económico, não pode dar ao seu programa um fundamento imperialista, é obrigado a recorrer ao idealismo.

"Para quê fazer derivar o socialismo da opressão económica?", escreve. "Para quê degradar a inteligência, o sentido da justiça, a vontade humana?" (Vorwärts, 26 de Março de 1899) .Bernstein pretende que a mais justa repartição que deseja seja realizada não por uma necessidade económica opressiva, mas pela livre vontade do homem, ou melhor, porque a vontade não passa de um instrumento, pela consciência da injustiça através da ideia de justiça.

Voltamos, pois, ao princípio da justiça, desde há milénios velho cavalo de batalha onde cavalgam os reformadores de todo o mundo, na falta de melhores meios históricos para o progresso, voltamos a esse Rocinante estafado no qual todos os D. Quixotes da história galoparam para a grande reforma do mundo, voltando perplexos e de orelhas caídas.

É este o socialismo de Bernstein, cujo fundamento social são as relações entre os ricos e os pobres, cujo conteúdo é o princípio das cooperativas, cujo objectivo é uma "repartição mais justa" e cuja legitimação histórica é a ideia de justiça. Com quanto mais força, espírito e brio, tinha Weitling defendido, há mais de cinquenta anos, essa espécie de socialismo! Certamente que o genial alfaiate ainda não conhecia o socialismo científico. Ora, para hoje, meio século mais tarde, pôr de pé a sua doutrina despedaçada por Marx e Engels, recoser os bocados e apresentá-Ios ao proletariado alemão como a última palavra da ciência é preciso outro alfaiate... mas já sem nada de genial.

Tal como os sindicatos e as cooperativas constituem o seu fundamento económico, o postulado político da teoria revisionista é o desenvolvimento crescente da democracia. As actuais explosões reaccionárias são, para o revisionismo, "sobressaltos" fortuitos e efémeros sem relevância na linha geral da luta operária. Para Bernstein, a democracia surge como uma etapa necessária da evolução da sociedade moderna. Que diz? Para ele, a democracia é, como para os teóricos burgueses do liberalismo, a lei fundamental da evolução histórica geral, para cuja realização devem tender todas as forças activas da vida política. Ora, nessa formulação absoluta, tal juízo é falso: trata-se de uma forma pequeno-burguesa e superficial de esquematizar os resultados de um período muito curto da história da burguesia, ou seja, os vinte e cinco ou trinta últimos anos. Se se examinar em pormenor a evolução da democracia na história e simultâneamente a história política do capitalismo, chega-se a uma conclusão diferente.

Encontramos a democracia nas mais diversas estruturas sociais: nas sociedades comunistas primitivas, nos Estados escravagistas da antiguidade, nas comunas da Idade Média. Do mesmo modo, encontramos o absolutismo e a monarquia constitucional nos mais diversos regimes económicos. Por outro lado, o capitalismo, desde as suas origens, no estádio da produção mercantil, fez nascer uma constituição democrática nas principais comunas da Idade Média; mais tarde, na sua forma mais evoluída, no período da produção manufacturada, encontrou na, monarquia absoluta a forma política correspondente. Por fim, no estádio da economia industrial desenvolvida, produziu necessàriamente, em França, a república democrática (1793), a monarquia absoluta de Napoleão I, a monarquia nobiliária da época da Restauração (1815-1830), a monarquia constitucional burguesa de Luís Filipe, de novo a república democrática, uma vez mais a monarquia de Napoleão IIl e, finalmente, pela terceira vez, a República. Na Alemanha, a única instituição verdadeiramente democrática, o sufrágio universal, não é uma conquista do liberalismo burguês, mas um instrumento que satisfaz, paralelamente, uma monarquia constitucional e semifeudal. Na Rússia, o capitalismo prosperou durante muito tempo sob o regime do absolutismo oriental sem que a burguesia tivesse manifestado o mínimo desejo de ver instaurada a democracia. Na Áustria, o sufrágio universal apareceu sobretudo como um meio de salvar a monarquia em decomposição. Na Bélgica, a conquista democrática do movimento operário, o sufrágio universal, é um resultado da fraqueza do militarismo e consequência da situação geográfica e política particular da Bélgica e sobretudo, esse "bocado de democracia", foi conquistado, não pela burguesia, mas contra ela.

O desenvolvimento ininterrupto da democracia, que o revisionismo, à maneira do liberalismo burguês, considera a lei fundamental da história humana, ou pelo menos da história moderna, revela-se, quando bem examinado, uma miragem. Podem estabelecer-se relações universais absolutas entre o desenvolvimento do capitalismo e a democracia. O regime político é sempre o resultado de um conjunto de factores políticos internos e externos e no interior desses limites apresentam todas as graduações da monarquia absoluta à república democrática.

Devemos renunciar à formulação de uma lei histórica universal do desenvolvimento da democracia, mesmo no quadro da sociedade moderna: se olharmos para a fase actual da história burguesa, também constatamos, na situação política, a existência de factores que saem do esquema de Bernstein e conduzem. pelo contrário, ao abandono das conquistas obtidas pela sociedade burguesa.

Por um lado, as instituições democráticas – é um facto importante – chegaram ao fim da sua intervenção no desenvolvimento da sociedade burguesa. Na medida em que ajudaram a unificar os pequenos estados e contribuíram para a criação de grandes Estados modernos (Alemanha, Itália), esgotaram a sua utilidade. Entretanto o desenvolvimento económico acabou a obra de coesão interna dos Estados.

Podem fazer-se observações sobre toda a máquina política e administrativa do Estado, passando de um organismo feudal a um mecanismo capitalista. Essa transformação historicamente inseparável do desenvolvimento da democracia está hoje tão completamente termInada que os componentes puramente democráticos da sociedade, o sufrágio universal, o regime republicano, podem ser suprimidos sem que a administração, as finanças, a organização militar pudessem retornar às formas anteriores à Revolução de Março de 1848, na Alemanha.

Constata-se que o liberalismo se torna inútil para a sociedade burguesa, chegando mesmo a entravar o seu desenvolvimento. É necessário mencionar dois factores que dominam toda a vida política dos Estados actuais: a política mundial e o movimento operário – um e outro são aspectos diferentes da fase actual do capitalismo.

Devido ao desenvolvimento da economia mundial, ao agravamento e generalização da concorrência no mercado mundial, o militarismo e as forças navais, instrumentos da política mundial, tornam-se um factor decisivo na vida interna e externa dos grandes Estados. No entanto, se a política mundial e o militarismo representam uma tendência ascendente da fase actual, do capitalismo, a democracia burguesa deve entrar, logicamente, na sua fase descendente. Na Alemanha, a era dos grandes armamentos, que data de 1893, e a política mundial iniciada pela tomada de Kiao-Tchou, encontrou compensação em dois sacrifícios pagos pela democracia-burguesa: a decomposição do liberalismo e a passagem do Partido do Centro para a oposição. As últimas eleições para o Reichstag, em 1907 (8), que se desenrolaram sob o signo da política colonial alemã, marcam o enterro histórico do liberalismo alemão.

A política exterior atira a burguesia para os braços da reacção – mas a política interna também a empurra através da ascensão da classe operária. Bernstein reconhece-o: para ele a história dos fantasmas da social-democracia, ou seja, a orientação socialista da luta operária é responsável pela traição da burguesia liberal. Aconselha o operariado, para recuperar o liberalismo assustado e afastá-Io do redil da reacção onde se refugiou, a abandonar o objectivo último do socialismo. Fazendo do abandono do socialismo uma condição primeira das premissas sociais da democracia burguesa, demonstra clara e simultâneamente que a democracia contradiz a actual orientação interna da evolução social e que o movimento operário é uma resultante directa dessa orientação.

Mas ainda prova outra coisa: pretende que a condição essencial de uma ressurreição da democracia burguesa é o abandono, pela classe operária, do seu objectivo fundamental; e por isso mesmo demonstra pelo inverso a falsidade da sua afirmação segundo a qual a democracia burguesa é condição indispensável do movimento e da vitória socialista. Aqui, a argumentação de Bernstein entra num círculo vicioso: a sua conclusão nega as próprias premissas.

Para sair desse círculo vicioso, é suficiente reconhecer a quem o liberalismo burguês vendeu a alma, assustado pela evolução do movimento operário; concluir-se-á que o movimento operário socialista é, actualmente, o único sustentáculo da democracia, não existindo nenhum outro. Verificar-se-á, então, que não é a sorte do movimento socialista que está ligada à democracia burguesa, mas, pelo contrário, é a democracia que se encontra ligada ao movimento socialista. Verificar-se-á que as oportunidades da democracia não se ligam à renúncia da classe operária à luta pela sua emancipação, mas, pelo contrário, ao facto de o movimento socialista ser suficientemente forte para combater as consequências reaccionárias da política mundial e da traição da burguesia.

Quem desejar o reforço da democracia desejará o reforço e não o enfraquecimento do movimento socialista; renunciar à luta pelo socialismo é renunciar simultâneamente ao movimento operário e à própria democracia.

Notas:

(5) Esta parte não se refere já aos artigos mas ao livro de Bernstein "Dle Voraussetzungen des Sozialismus und der Aufgaben der Sozial-Demokratie" As páginas que indicamos pertencem à edição alemã. ( N. T. ).

(6) Bernstein vê manifestamente na grande difusão das pequenas acções uma prova de que a riqueza social começa a deixar cair a sua chuva benfazeja sobre os desprotegidos. Com efeito, quem poderia, a não ser os pequenos-burgueses, ou mesmo os operários, comprar acções pela bagatela ,de uma libra esterlina ou de vinte marcos! Infelizmente esta hipótese assenta sobre um erro de cálculo: opera-se com o valor nominal das acções em lugar de se operar com o seu valor para o mercado, o que é completamente diferente. No que respeita ao mercado mineiro, tratou-se entre outras coisas das minas sul-africanas do Rand, das acções, tudo, como a maior parte dos valores mineiros de uma libra esterlina, ou seja de vinte marcos papel. Mas, já em 1899, elas custavam três fibras esterlinas (ver contas referentes ao final do mês de Março), ou seja não vinte mas 860 marcos! O mesmo acontece por todo o lado. Na realidade, as pequenas acções são, embora tenham um aspecto bastante democrático, "uma boa segurança sobre a riqueza social" de características absolutamente burguesas e não pequeno-burguesas ou proletárias, pois apenas uma pequena minoria de accionistas consegue comprá-las pelo seu valor nominal.

(7) "As próprias cooperativas operárias de ’produção constituem a ’primeira brecha aberta no seio do antigo sistema. embora naturalmente na sua organização real reproduzam forçosamente todas as deficiências do sistema vigente". (Marx, Capital, livro III, cap 27, t. XI, p. 287, trad. Molitor, Paris, Coste).

(8) As eleições para o Reichstag de Janeiro de 1907 foram designadas por "eleições dos Hottentots": tiveram lugar no fim das sangrentas guerras coloniais contra os Héréros e os Hottentots e foram marcadas por um certo retrocesso social-democracia, que perdeu um grande número de lugares. A propaganda governamental conseguiu, no decorrer da campanha eleitoral, promover a união dos partidos burgueses e conservadores contra o S. P. D. (N. T.)

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